9 de fevereiro de 2017

O que se escreve e o que se diz

Um blogue pode servir para muitas coisas e uma das funções da Travessa… é ser um depósito sempre acessível das minhas opiniões, apresentadas de forma minimamente organizada e documentada, para que posso remeter as pessoas com quem discuto certas questões, em vez de repetir de cada vez as referências e o argumentário. Mas, se é essa umas das funções dos textos da Travessa… nunca tinha sido essa a sua motivação imediata — até a: este texto foi escrito para ser usado como texto de referência nas muitas discussões que tenho sobre a questão da influência da escrita na pronúncia. Não é a primeira vez que aqui escrevo sobre o assunto e dediquei até ao tema uma parte de um texto que escrevi há três anos sobre o famigerado Acordo Ortográfico de 1990; mas quero agora desenvolver  um pouco a questão.

Não aprendemos as palavras da nossa língua por escrito. Mesmo que aconteça o caso raro (mas não impossível) de vermos uma palavra escrita antes de a ouvirmos, e a pronunciarmos de forma pouco canónica porque seguimos as regras normais de leitura, basta ouvi-la uma ou duas vezes para começarmos a pronunciá-la corretamente. Imaginemos que alguém nunca ouviu a palavra colação e que, quando a vê escrita, pronuncia [colâção] com o primeiro a fechado[1]. Mesmo que ninguém o corrija, ao ouvir a pronúncia normal [colàção], a pessoa corrige-se[2]. A exceção ao estado de coisas que acabo de descrever seriam, naturalmente, as palavras que só lemos sem nunca as ouvirmos. Que palavras são essas? Alguns palavrões técnicos, mas não deve haver muitos. Deve haver mesmo muito poucos…

Não se passa o mesmo com palavras estrangeiras: não temos interiorizado o sistema fonético da língua e não ouvimos essas palavras o número de vezes suficiente para corrigir uma pronúncia errada em que a escrita nos induza, sobretudo (isto é muito importante) quando essa pronúncia é apoiada pela pronúncia de cognatos na nossa língua materna. Por exemplo, não se pode saber se os portugueses que dizem os ss da palavra inglesa dissolve como [s] e não como [z] — que é como se pronunciam de facto  — o fazem por causa da grafia ou por interferência do som da língua materna. Da mesma forma, se durante muito tempo pronunciei [siúksi siuks] o nome da cantora inglesa Siouxie Sioux, em vez de [súzi su], como devia, não posso saber se foi por influência da grafia apenas ou por influência da pronúncia da palavra sioux que eu tinha interiorizada desde a infância[3]. O que me diz a minha experiência de quase 30 anos de ensino de português como língua estrangeira a adultos é que é tão impensável livrar-se da influência da escrita como ensinar a língua a adultos sem a escrever. Mas, lá está, se um inglês ou um dinamarquês pronunciam o c que havia em projecto nas grafias anteriores ao AO90, não se sabe se é por verem esse c ou se é porque há esse som nos cognatos de projeto nas suas línguas, project e projekt respetivamente.

A questão é de facto complexa e é difícil fazer grandes afirmações sobre ela sem ter, como eu não tenho, conhecimento de estudos exaustivos e sérios. Por exemplo, não sei se se pode falar de influência da escrita na pronúncia quando se nota a pronúncia fechada de certos ee abertos pretónicos em falantes de português como língua segunda (é um fenómeno que conheço de Moçambique), que pronunciam esquecer ou aquecer «como se escrevem» [aquəcer, esquəcer]. Muito provavelmente, o problema põe-se antes exclusivamente ao nível do sistema fonológico: o muito contacto com a língua fez com que essas pessoas interiorizassem a regra de que o fonema /E/ se pronuncia fechado quando é átono, mas esse mesmo contacto com a língua não foi suficiente para interiorizar as exceções, como o fazem os falantes maternos[4].

A escrita não tem, não pode ter, influência na pronúncia de uma língua. Conheço trabalhos em que se defende que, com a aprendizagem da escrita, a imagem mental de um som fica indelevelmente ligada à sua representação gráfica — o que explicaria, digo eu, a grande resistência que sempre há a qualquer reforma ortográfica e o alto grau de emotividade dessa resistência —, mas não conheço, nem nunca vi referido, nenhum trabalho sobre a influência da grafia na pronúncia de uma língua[5]. Voltemos à asserção simples de Richard Feynman que já aqui pus uma vez: para vermos se temos uma boa lei científica — ou, diria eu, uma verdade geral, porque não há nada que distinga uma lei científica de outra verdade geral — calculamos as suas consequências e comparamos o resultado do cálculo com a realidade. Se as implicações da teoria não se verificarem na realidade, a teoria está errada. Parece que é isto que não faz quem propõe que a escrita influencia a pronúncia: computar que implicações essa presumida influência teria, se fosse verdadeira. Ora a primeira implicação deste postulado, e obviamente completamente desfasada da realidade é que, em sociedades altamente escolarizadas, a pronúncia deixaria de evoluir, porque a escrita funcionaria como travão a essa mudança. Mais, nessas mesmas sociedades, se houvesse de facto influência da escrita na pronúncia, voltar-se-ia, nalguns casos a pronúncias mais antigas, que se tinham afastado da forma escrita antes de se generalizar a alfabetização. Nada disto faz grande sentido. Vejam qualquer filme dinamarquês dos anos 30 e comparem com a pronúncia atual… E já nem quero dar-vos exemplos das implicações que isto teria em línguas com escritas muito pouco fonéticas, como o francês ou o inglês, para não pensarem que estou a disparatar. Mas a hipótese que leva a esses disparates não é minha, pelo contrário, é aquela que estou aqui a refutar… Tentem imaginar que implicações tem a teoria quando a aplicamos ao caso da mudança de alfabeto na Turquia em 1929, quando passou do alfabeto árabe ao alfabeto latino. Mas não há relatos de que a pronúncia do turco tenha sofrido alguma alteração nessa altura, ou há?

Deixem-me só listar mais alguns fenómenos que decorrem do cômputo das implicações da hipótese. Já os referi antes, mas tenho de os repetir agora neste texto que é especificamente sobre esta questão: se a influência da escrita sobre a pronúncia fosse de tal modo que, como pretendem alguns, levasse ao fechamento das vogais átonas de que não há marca de abertura, porque nunca se fecharam as dezenas e dezenas de vogais nessa situação antes do acordo? Quer dizer, com séculos de redução vocálica, nunca se fecharam as vogais de padaria, aquecer ou corar, mas, de repente, iam começar-se a fechar as vogais de receção ou adotar… Nunca se fechou o e aberto de pregar e pregador (que concorre de facto com o e fechado de pregar e pregador), mas havia de fechar-se o e aberto de espetador (que concorre com uma palavra só virtualmente existente, espetador, aquele que espeta)? Ou a lei de que a escrita influencia a pronúncia só começou a ser uma lei linguística depois da entrada em vigor do AO90? Sejamos sérios. Aliás, como já o disse aqui uma vez, do postulado que a escrita influencia a pronúncia tem de se inferir forçosamente que a escrita faria com que se pronunciassem, mais que as vogais abertas… as consoantes mudas!

Contava-me alguém que tinha vista uma pessoa que, ao ler conceção, hesitara e acabara por pronunciar como concessão, com e fechado antes de se autocorrigir, porque se dera conta de que concessão não fazia sentido no contexto. É outra coisa. Se uma pessoa não está habituada a ver conceção, pode não perceber logo de que se trata. O mesmo pode acontecer a quem vê escrito, sei lá, colã, se sempre viu escrito collant. Mesmo que não leia em voz alta, pode não perceber logo de que palavra se trata. É claro que uma mudança de grafia tem implicações deste tipo. Mas isto não tem nada a ver com a grafia influenciar a escrita. A pessoa que hesitou na leitura de conceção e pronunciou como se fosse concessão continuará a pronunciar conceção como sempre pronunciou. E, a quem tenha aprendido a escrever conceção sem p, o problema nunca se porá — exatamente como não se põe a quem lê vadio com a aberto ou república com e aberto, sem marca nenhuma dessa abertura na escrita. E pronunciará conceção da mesma maneira que quem aprendeu a escrever com p. Claro.

É de notar, já agora, que, com o desaparecimento dos pp e cc não pronunciados se mantêm, em muitas palavras em que se quer ver confusão — ou com que quer fazer confusão —, dois paradigmas perfeitos, um de ç e outro de ss, em que ao de ç corresponde a pronúncia aberta do e pretónico e ao de ss a pronúncia fechada do e na mesma posição: conceção, preleção, coleção, seleção, correção, direção, etc., vs agressão, concessão, impressão, pressão, recessão, sucessão, etc. Para quem esteja muito preocupado sobre como distinguir ee pretónicos abertos de fechados, neste caso a regra é esta: antes de -ção são abertos, antes de -ssão são fechados. Fácil, não é verdade? E, afinal, sempre há aqui uma marca gráfica da abertura do e: o ç.

Uma última palavrinha sobre as implicações da nova ortografia no ensino do português europeu como língua estrangeira. Não vão ser muitas, claro, porque as alterações são muito poucas, mas algumas poderá ter. Uma é que pode criar uma maior divergência em relação às línguas que os alunos falam, fazendo com que se tornem mais difíceis de reconhecer imediatamente num texto escrito palavras como cato, inseto ou ótimo. Isto já acontecia em vários casos no ensino do português do Brasil e, também nalguns casos, no português de Portugal (estrito, contrato, etc.). Mas, note-se, não acontece com todas as palavras: uma palavra como arquitetura é tão facilmente identificada na escrita como arquitectura. Por outro lado, o que cria maior dificuldade no reconhecimento da palavra escrita é uma ajuda na pronúncia: ao ler em voz alta catoinseto ou ótimo o aluno não pronunciará [cakto], nem [insekto] nem [óptimo], como fazia antes. Mas continuará provavelmente a fazê-lo, por causa da influência da língua materna, mal deixe de ter à frente ou na memória recente a grafia da palavra. Porque, como se sabe, para os falantes estrangeiros, a grafia não é a única fonte de pronúncias erradas…
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[1] Uso neste texto, como noutros sobre pronúncia, os termos fechado e fechamento, e aberto e abertura, quando falo do timbre das vogais, para simplificar a leitura de quem não saiba de fonética, mas, na realidade, não é fechamento que há nas vogais átonas do português europeu, mas antes elevação e recuo. Também uso transcrições fonéticas simplificadas, para quem não esteja familiarizado com o alfabeto fonético internacional.

[2] Já se aprender a dizer [colèção], como muita gente diz em vez de [colàção] («isto à vinha à coleção do que a gente ’távamos agora a falar…»), fará provavelmente parte de um grupo de pessoas sobre as quais não terão grande efeito nem a palavra escrita nem a pressão dos pares para falar corretamente — e continuará a pronunciar assim o resto da vida…

[3] O pseudónimo de Susan Janet Ballion é uma grafia alternativa de Suzy Sue, baseada no facto de Sue e Sioux se pronunciarem da mesma maneira em inglês. A pronúncia de sioux que aprendi em miúdo — com os meus pares, seguramente — é [siuks], que é, segundo o que vejo no Priberam, uma pronúncia errada: devia pronunciar-se à francesa, [siu], já que é uma palavra que, diz o mesmo Priberam, nos chega pelo francês.

[4] Além de que, em princípio, não têm interiorizado nenhum sistema estável que não seja o da sua própria língua, não é verdade? A questão dos mecanismos de processamento e interiorização de formas irregulares é muito complicada e não faço ideia como são interiorizadas as vogais abertas em posição átona do português europeu e se esse tipo de «exceções» é processado da mesma forma na língua materna e em línguas segundas ou estrangeiras.

[5] O que não quer dizer que não haja, claro está. Até há trabalhos sobre a influência da língua sobre poupanças, valham-nos os santos todos que velam sobre o bom senso e o rigor…

4 de fevereiro de 2017

O paradoxo do telemóvel

Peter Hadfield, também conhecido como potholer54, publicou recentemente um vídeo em que explica que, ao contrário do que pretendem vários artigos que circulam pela Internet, não há nenhum indício de que os telemóveis afetem o cérebro, o coração ou seja lá que parte for do corpo humano (ver aqui o vídeo “Do cell phones cook your brain?”).

Quando publiquei o vídeo no Facebook, um amigo meu comentou que, a julgar pela maneira como certas pessoas (não) pensam, talvez a teoria de os telemóveis afetarem o cérebro não fosse de desprezar. O comentário inspirou-me e criei um paradoxo (mais um…) que talvez venha a ser conhecido nos anais da filosofia como «o paradoxo do Vítor» ou «o paradoxo do telemóvel»:
Os telemóveis afetam o cérebro de certas pessoas, fazendo com que essas pessoas não consigam compreender que não há provas nem nenhuma outra razão para acreditar que os telemóveis possam afetar o cérebro ou outra parte do corpo. 
Que dizem do paradoxo os meus leitores que se interessem por lógica?

23 de janeiro de 2017

Pequenas notas sobre tu e outras segundas pessoas

«É Ego quem diz Ego» (Émile Benveniste, Problèmes de linguistique générale, 1958) 
«E é Tu aquele a quem se diz Tu» (Ego)

Nas línguas que conheço, quando desaparece a distinção, nos pronomes e formas verbais, entre um tratamento mais formal e um tratamento familiar, desaparece o tu e fica só o você. Foi o que aconteceu no inglês, do espanhol de uma parte da América Latina e da maior parte do português brasileiro.

Parece mais prático, não é?, e é o que eu ensinava aos meus alunos estrangeiros que iam para Moçambique: enquanto não tiverem uma noção clara de quem tutear, usem sempre o tratamento de terceira pessoa, mais vale ser demasiado formal que demasiado informal.

Em Portugal, a diferença só desapareceu no plural: só em poucas zonas se mantém o vós, em quase o todo o lado já só se usa o vocês. Em Espanha, o castelhano, pelo menos, mantém a distinção; ainda há um vosotros que é plural de tu e um ustedes que é plural de usted.

[Em Moçambique, já agora, o tratamento por tu/você é muito instável e observa-se com frequência que uma pessoa trate a outra às vezes por tu e outras vezes na terceira pessoa. Pode depender da situação (trabalho/tempos livres), mas nem sempre.]
  
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Usei atrás tutear. Dizemos muito mais tratar por tu que tutear e é pena, porque tutear é uma palavra bonita. Usa-se em espanhol, como se usa tutoyer em francês. O espanhol e o francês têm ainda ustear e vouvoyer, que não têm correspondente simples em português — só temos a expressão tratar por você.

 Em dinamarquês, existe a expressão være dus med nogen, «ser tu com alguém», que, além do significado original de «tratar por tu», tem um sentido mais vasto, como em português tratar por tu também pode ter («aquele gajo trata a bola por tu») e que se encontra também, em português, na expressão ser tu cá tu lá com alguém. Como diz uma célebre canção, quem trate por tu as aves e o arvoredo entende os corações que palpitam ao seu redor.

Poul Reichhardt, “Er Du Dus Med Himlens Fugle” (Erik Leth/Sven Gyldmark), 1958

    
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Quando falo aqui de tratamento por você, é ao tratamento na terceira pessoa que me refiro, não especificamente ao uso da palavra você. «Você é moço de estrebaria», costuma dizer-se — nem é familiar como tu, nem é verdadeiro tratamento de respeito, pensam alguns, e não se deve usar, pronto! Mas você — como tu ou as outras possibilidades de tratamento, aliás — é muitas coisas, conforme a circunstância e o tom. Dava um tratado, descrever em pormenor a complexidade das formas de tratamento, que ultrapassa em muito o uso das pessoas do verbo e os pronomes, nomes ou títulos que se lhes liga.

Quando conto aos meus alunos dinamarqueses que havia quem tratasse por tu os subordinados e exigsse que estes o tratassem na terceira pessoa, só os mais velhos fazem alguma ideia do que estou a falar. Mas, mesmo os mais velhos acham estranho quando lhes digo que trato por você a minha mãe, porque era assim que se fazia quando eu era miúdo e depois uma pessoa já não consegue mudar. E mais estranho acham quando explico que os filhos tratavam por você os pais e os pais os tratavam por tu. Só nas famílias de classes mais altas é que eu ouvia os filhos tratarem os pais por tu. Não sei se seria assim em todo o lado, mas era assim onde eu cresci. E, se eram famílias que se pretendiam muito finas, tratavam-se todos por você, marido e mulher e tudo. É capaz de ainda existir isso, não sei.
  
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Alguém me propunha uma vez que a criança sofre quando, depois de começar a vida sendo sempre ou eu ou tu, se dá conta de que os outros falam dela na terceira pessoa: «Afinal, também sou ela?» Não me lembro já de quem era a teoria… Conhecem-na? Parece-me algo estapafúrdia, explicada só assim, mas, se calhar, tem elementos que desconheço. Ou fui eu que inventei?

Bom, a verdade é que vi muitas pessoas a dirigirem-se a bebés na terceira pessoa, mesmo em línguas em que esse tratamento não existe para adultos:

– O bebé aleijou-se? Coitadinho, anda cá, anda cá…

Mas, sei lá, para quem fale inglês ou sueco, creio que isso de falar com alguém na terceira pessoa é mesmo coisa que só se faz a bebés e monarcas. Quando uma inglesa aprende português, fica sempre muito surpreendida quando falam diretamente com ela como se dela falassem. Tão surpreendida que pensa que estão a falar de outra pessoa:

– A Sarah já está cá há muito tempo?

«Que Sarah? De quem estará ele a falar? Espera, a Sarah sou eu… A Sarah quer dizer you…»

Só não é estranho para nós, que estamos habituados. Mas, mesmo para nós, pode ser estranho tratarem-nos por uma terceira pessoa diferente da que conhecemos. Lembro-me da primeira vez que recebi uma carta formal em italiano:

«Ela deverá confirmar, com a maior brevidade possível…»

Era a mim que aquilo se dirigia, Ella era comigo… Bom, tinha aprendido que lei, que também significa «ela», correspondia ao nosso o/a senhor(a). Mas a palavra lei é muito diferente da palavra portuguesa ela e aceitam-se melhor os seus vários significados. Ella como pronome da segunda pessoa é mais estranho para nós.
 
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 Varia muito, de língua para língua, a segunda pessoa formal: em francês e sueco, por exemplo, corresponde ao nosso vós, como já foi em Portugal, quando se falava com reis e mais gente nobre; em italiano é ela, como disse; em dinamarquês e alemão é eles

 Também há segundas pessoas, que não conseguimos decidir bem se são formais ou não, como o chamado «nós dos médicos» (a mim, soa-me a um tu paternalista, mas não sei):

– Então e que nos traz cá hoje?

E até a primeira pessoa é às vezes usada como tu  — por exemplo, em francês,  quando se diz a alguém que está a ser abelhudo:

– De quoi je me mêle, moi? («E eu em que que é que me estou a meter?»)

Agora, virando as coisas ao contrário, a forma da segunda pessoa também se pode usar para exprimir a primeira e a terceira pessoas. Tu pode ser eu

– E pronto, pá, tu chegas lá e eles começam todos a olhar para ti de lado. É claro, tu sentes-te mal. (sobre algo acontecido = «Cheguei lá e eles começaram todos a olhar para mim de lado. É claro, senti-me mal»)

… e tu pode ser um se genérico:

– Por mim, está tudo muito bem, que se alterem os horários. Agora, tu não podes é alterar os horários no dia anterior, as pessoas têm de saber com um mínimo de antecedência!
(quem alterou os horários não foi a pessoa com quem se fala = não se pode alterar os horários)

A regra geral parece ser que todos os pronomes se podem usar para todas as pessoas… ou quase.
  
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Pode discutir-se até que ponto o desaparecimento do thou em inglês, por exemplo, resulta de uma formalização das relações entre pessoas, mas o facto é que as relações entre pessoas não são essencialmente diferentes nos países de língua inglesa e nos países de língua portuguesa, castelhana, francesa e alemã em que se usam formas distintas para relações sociais mais ou menos próximas. E então, se não se marca proximidade ou distância com um pronome ou uma forma verbal, tem de se arranjar outra maneira de as marcar. Alguém me dizia uma vez que essa era uma das dificuldades do inglês: como se diz you a toda a gente, é mais difícil deixar claro se a outra pessoa é, para nós, tu ou a senhora.
  
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Também pode acontecer o contrário — que a alteração das relações entre as pessoas leve a uma alteração do uso de pronomes e formas verbais. Na Dinamarca (e a situação é, creio, quase igual nos outros países escandinavos), deitaram fora o você (De) nos anos 60 do século passado e toda a gente se trata por tu. Em mais de 10 anos de residência na Dinamarca, não me devem ter tratado por você mais de uma dúzia de vezes e foram sempre empregados de loja ou algum tipo de vendedores. Aqui trata-se o primeiro-ministro, seja lá quem for, sempre, mas sempre, por tu. Exceto a família real, claro, também não exageremos.

O resultado disto é que as novas gerações já não sabem usar o tratamento por você. Em princípio, a língua continua a ter formas pronominais para distinguir o tratamento formal do tratamento informal; mas, se esta distinção não foi interiorizada pelas novas gerações, está a tornar-se um arcaísmo, a desaparecer da cabeça dos falantes.

Um fenómeno creio que muito raro, mas, como se vê, possível: a influência direta da evolução social na evolução da língua.

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Isto as ideias são como as cerejas: uma pessoa começa a pensar em pronomes pessoais e começa a reparar em coisas em que nunca tinha reparado…

Os pronomes possessivos têm tido muita mais fortuna no discurso igualitário que os pronomes pessoais. Vi dezenas de vezes definir assim um ideal de radical igualdade, em imaginadas utopias ou em idealizadas sociedades «primitivas»: «não existe aí o meu e o teu». Mas não me lembro de alguma vez ter visto «não existe aí o tu e o você»…

17 de janeiro de 2017

A grafia como memória etimológica: duas curiosidades sobre ss e acentos circunflexos

A regra é esta: qualquer alteração na grafia, em qualquer língua, em qualquer altura, será sempre contestada.

Já desde 1990 que se deve suprimir a maioria dos acentos circunflexos no i e no u, mas a maior parte das pessoas continua a escrever como aprendeu («está bem, mas eu foi assim que aprendi, é assim que escrevo» é uma justificação frequente da não adesão a reformas ortográficas) e, de vez em quando, reaviva-se a contestação ao desaparecimento dos circunflexos. O argumento é às vezes a perda da memória etimológica: esses circunflexos assinalam o desaparecimento de um s latino.

Há quem argumente — com toda a pertinência, na minha opinião — que à maior parte das pessoas não interessa para nada a etimologia e que os que por ela se interessam não é com ortografias «etimologizantes» que a aprendem. Também se pode argumentar, porém, que essas grafias são um auxiliar do conhecimento etimológico que se adquire sem grande custo ao aprender a escrever, de maneira que é mais ganho que perda.

Não vou discutir aqui qual a melhor grafia para se aprender a escrever, até porque não domino bem o assunto. Vejo que os dinamarqueses, que têm uma grafia nem sempre muito fonética, aprendem a escrever com uma grafia artificial mais fonética («escrita de crianças») que é mais tarde corrigida — e parecem ter com isso bons resultados, ao que observo à minha volta. Mas não sei. O que sei, e é disso que quero falar agora, é que as grafias etimológicas, além de terem sido elas próprias muitas vezes introduzidas rompendo com a evolução natural da escrita, nem sempre são realmente etimológicas. Dou-vos dois exemplos, dos muitos que podia dar, dessas grafias etimoilógicas, como eu lhes chamo, porque de lógicas não têm muito.

Boite vem do latim buxida, que deu buxita, que deu bustia, bostia, boiste e boîte. Então, ao contrário do que muitas vezes se diz, o acento circunflexo de boîte não assinala(va) o desaparecimento de um s etimológico, mas apenas o desaparecimento de um s que houve numa determinada fase da evolução da palavra. De facto, ortografias conservadoras como a do francês não são etimológicas em sentido estrito (e existirá tal coisa?), mas muitas vezes refletem antes maneiras antigas de pronunciar as palavras — de várias épocas misturadas… E convém esclarecer, já agora, que a escrita parou numa época, há muitos séculos, em que se dizia /boite/como se escreve, mas, como sabem, a palavra continuou a evoluir: passou a dizer-se /buete/ e depois a /buate/, como se pronuncia agora.

Já em île, o acento circunflexo marca(va) mesmo o desaparecimento do s que tinha havido no latim i(n)sula. Agora, porque acharão os defensores das marcas etimológicas que se deve assinalar o desaparecimento do s latino e não o desaparecimento do u latino, por exemplo? É estranho. Aliás, não é só impossível definir o que se há de conservar do étimo, como é impossível definir o próprio étimo: as palavras latinas também têm uma história, não foram criadas do nada. Mesmo que, para simplificar, tomemos como étimo as primeiras formas escritas, a coisa é complicada: o étimo de boite passa a ser grego (πυξίς) e põe-se mais uma questão às preferências etimológicas: que escrita etimológica se deve ou pode usar para o que vem de outros alfabetos ou de outros sistemas de escrita?

Mas enfim, deixemos isso, tenho a certeza de que, chegados aqui, os meus leitores estão já mais que convencidos de que isso da grafia etimológica é uma grande confusão… Em île, dizia eu, o acento circunflexo assinala que houve ali um s que desapareceu da escrita e da pronúncia. Já no inglês isle, que vem do francês, o s nunca desapareceu… da escrita. Agora, o mais curioso é que island, que se pode relacionar semanticamente com isle, tem um s etimologicamente injustificado. A forma que deu island, igland, não tem s nenhum, mas alguém achou por bem ir buscá-lo a isle e acrescentá-lo à palavra, só para enfeitar... É de notar, já agora, que o isle inglês foi ile antes de ser isle, porque foi assim que foi importado do francês, numa altura em que as grafias il(l)e e isle coexistiam. Quando os franceses resolveram fixar, no séc XVI, a grafia com aquele bonito s, os ingleses acharam por bem imitá-los. Depois, os franceses substituíram o s por um acento circunflexo no i, mas os ingleses preferiram manter o s. Uma bonita história, não é?

15 de janeiro de 2017

Este deu-me a Isabel nos meus anos

Descobri agora que uma compilação dos singles dos Cure comprada em La Paz, tinha, no próprio CD, marcas de negro de fumo do incêndio no nosso apartamento em Copenhaga em 2001. E eu a pensar que, exceto em meia dúzia de documentos que tivemos de guardar com páginas enegrecidas, nos tínhamos livrado de todos os vestígios físicos do fogo. Os incêndios deixam mais marcas do que nós pensamos à primeira. Ainda hoje, passados 12 anos, damos connosco às vezes a perguntar-nos onde teremos guardado isto ou aquilo, para concluir depois de alguma reflexão que o tal objeto não está guardado em lado nenhum — foi no incêndio... Mas esta descoberta fez-me pensar noutra coisa: alguns dos meus CDs têm uma história. Ou mais que uma como neste caso.

Para as novas gerações, o suporte natural da música é o computador, o tablet, o telefone ou essa vaga e gigantesca rede de computadores chamada Internet. Já não consideram natural que uma obra musical tenha um suporte individual, independente, como seja um disco, vinil ou CD, ou uma fita magnética, cassete, cartucho ou bobina. Não tomem esta nota por expressão apenas de conservadorismo. Qualquer pessoa que, como eu, se interesse muito por música e oiça muita música encontra inúmeras vantagens nos formatos digitais sem suporte físico próprio. Mas têm também duas desvantagens, acho eu: o digital não serve bem de presente e não é bom objeto de coleção.

Não tenho números disponíveis e uma reflexão assim, que não se baseia em nada mais objetivo que as minhas impressões, tem pouco ou nenhum valor; mas, tenho a ideia de que uma percentagem não desprezível das obras musicais era comprada para oferta ou, mais ou menos explicita e conscientemente, como objeto de coleção. É claro, ainda se fazem CDs e vinis (cada vez mais vinis, aliás), que podem bem satisfazer as necessidades dos colecionadores. Mas a preponderância do digital não promove, creio eu, o surgimento de novos colecionadores. Quanto ao resto, que pena que é receberem-se cada vez menos discos de prenda de anos...

Georgie Fame: "Vinyl", de Three Line Whip, 1995

8 de janeiro de 2017

Funcionalismo de tijolo amarelo [Crónicas de Svendborg #24]

Nasci em Lisboa, entre a Graça e Santa Apolónia, e, por isso, o funcionalismo* é, para mim, o estilo arquitetónico mais natural. Mas não há funcionalismo de tijolo amarelo em Lisboa. Aliás, pode ser que haja em muito sítios, mas não me lembro de alguma vez ter visto prédios funcionalistas de tijolo amarelo a não ser na Dinamarca. Bom, a cor do tijolo é um pormenor relativamente secundário num edifício. Ou, mesmo que não seja, não é por ser ou não de tijolo amarelo que gostamos de uma casa. A verdade, porém, é que dou por mim muitas vezes a achar bonitas casas de tijolo amarelo, que querem?, e achei que era bom tema para um artigo de blogue, voilà!

Encontrei no blogue A/DRIFT IN DK, de Ann Priestley, um distinção entre «dois estilos principais» de funcionalismo dinamarquês «no período entre as duas grandes guerras» (traduzo eu). Há:
Edifícios mais parecidos com os que se encontram fora da Dinamarca, muitas vezes em estilo cubista branco com coberturas planas, experimentando o betão e outros materiais novos (...), o funcionalismo internacional, (...) [e] edifícios que integram as tradições e materiais dinamarqueses, utilizando tijolo e telha (...), o funcionalismo internacional, muito mais divulgado.

Vale a pena ler todo o artigo, "Bauhaus in Denamark: it's funkis", bem como outro artigo sobre o funcionalismo dinamarquês, "Landmarks: the modern house in Denmark". Para ilustrar o funcionalismo nacional, Ann Priestley escolhe um edifício que sempre me encantou — de tijolo amarelo.

Virum Torv 2/Frederiksdalsvej 7. Foto de Ann Priestley, com autorização da autora (ver em Google Maps Street View)  
Não consegui descobrir quem o desenhou. Aliás, não consegui descobrir quem desenhou nenhum dos prédios que aqui mostro a seguir. Não são obras marcantes, notem, e nem forçosamente funcionalistas, apenas edifícios de tijolo amarelo com que me cruzo no meu dia-a-dia e que acho bonitos.

Søndre Boulevard 80, Odense. Foto minha (ver em Google Maps Street View)



Valdemarsgade 46,  Svendborg. Foto minha (ver em Google Maps Street View)

Sirenvej 53, Vindeby. Foto de Google Maps, ligeiramente tratada (ver em Google Maps Stret View)



A biblioteca de Svendborg, Svinget 1, vista de Viebæltet. Foto minha. Não se vê toda a extensão do edifício (ver em Google Maps Street View)

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Agora, uma coisa que não tem nada a ver com isto: um senhor chamado Mark Forsyth diz que, em inglês, uma sequência de múltiplos adjectivos «tem absolutamente de seguir esta ordem: opinião-tamanho-idade-forma-cor-origem-material-finalidade». Se não o fizer, a frase soará errada, embora os falantes da língua não saibam explicar porquê (leiam aqui: ) Será o mesmo em português? Mas, e se for, que tipo de qualidade é funcionalista? Não parece estar na lista… É que hesitei um bocado no título: primeiro, queria qualificar o tijolo com dois adjetivos, mas, como não conseguia decidir se me soava mais natural «tijolo funcionalista amarelo» ou «tijolo amarelo funcionalista», resolvi dar a volta à coisa. (Smile, smile)

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* Ou modernismo, se preferirem. A distinção entre os dois termos, ambos muito abrangentes, parece não ser clara, e ainda menos para mim, que não sou especialista em arquitetura, mas é funcionalismo que se usa aqui na Dinamarca para designar este tipo de arquitetura de que aqui falo.

Um amigo meu dinamarquês, que é arquiteto, disse-me uma vez que nunca ouviu falar de modernismo na Dinamarca até aparecer o pós-modernismo: «É claro, como tinham um pós-modernismo, tinham de ter um modernismo; e então começaram a designar como modernistas as coisas que nós sempre conhecemos como funcionalistas.»


8 de agosto de 2016

Férias em Lisboa #2

Fomos à praia uma tarde, o Manuel, a Clara, o Justino e eu. Bom, fomos à praia é uma maneira de dizer, porque ficámos na esplanada a conversar, a beber cerveja e a comer caracóis. Só o Justino é que foi dar um mergulho.

Eu e o Justino temos há muito tempo uma brincadeira pateta que é afrancesar palavras portuguesas (ele vive em França há mais de 40 anos e foi lá que nos conhecemos) e rirmo-nos com essa palermice, como dois miúdos pequenos. Quando ele veio da água, disse-lhe já não sei o quê a propósito dos calçons. Podia ter sido também a gozar com o forte sotaque portuense que ele tem, mas não foi, juro, foi a tal parvoíce do afrancesamento.

Quando disse calçons, lembrei-me que a palavra caleçon existe de facto em francês, apenas com um significado diferente: pode ser ceroulas ou cuecas daquelas compridas; e, vá lá eu saber porquê, a palavra caleçon trouxe-me à mente um diálogo de um livro de Marcel Pagnol que li há muito anos.

– Vocês topam aquela cena do La gloire de mon père de Pagnol em que em que ele vai com o pai a uma loja de coisas em segunda mão e o pai discute com o lojista o preço de uma cómoda antiga? O pai de Pagnol diz que a cómoda está muito velha e o lojista riposta que é uma antiguidade:
«Quer dizer, a si não lhe interessa nada que este móvel tenha talvez visto a rainha Maria Antonieta em camisa de noite?»
«Pelo estado dele, diz o pai de Pagnol, não me admirava nada que tivesse visto o rei Herodes em ceroulas».
E depois continua, eu é que não me lembro bem da conversa toda, uma daquelas batalhas de retórica à provençal que é um gosto!*

– Tenho aqui o livro na mochila – disse o Manuel.

Ficámos banzados. Não sei nada de probabilidades, mas quem perceber do assunto dir-me-á que probabilidades havia de ele ter ali aquele livro de que tão improvavelmente me fui lembrar. Não podem ser muito grandes.

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* Aqui fica, já agora, mais um bocado da famosa cena. No original — peço desculpa a quem não ler francês.

   Nous nous arrêtâmes au bout du boulevard de la Madeleine, devant une boutique noirâtre. […] Mon père lui avait déjà rendu visite et avait retenu quelques « meubles »[…]. Le brocanteur nous aida à charger tout ce fourniment sur la charrette à bras. Le tout fut arrimé avec des cordes, qu'un long usage avait rendu chevelues. Puis, on fit les comptes. Après une sorte de méditation, le brocanteur regarda fixement mon père et dit :
   « Ça fait cinquante francs!
   – Ho ho! dit mon père, c'est trop cher!
   – C'est cher, mais c'est beau, dit le brocanteur. La commode est d’époque!»
   Il montrait du doigt cette ruine vermoulue.
   « Je le crois volontiers, dit mon père. Elle est certainement d'une époque, mais pas de la nôtre! »
   Le brocanteur prit un air dégoûté et dit :
   « Vous aimez tellement le moderne ?
   –  Ma foi, dit mon père, je n'achète pas ça pour un musée. C'est pour m'en servir. »
   Le vieillard parut attristé par cet aveu.
   « Alors, dit-il, ça ne vous fait rien de penser que ce meuble a peut-être vu la reine Marie-Antoinette en chemise de nuit ?
   – D'après son état, dit mon père, ça ne m'étonnerait pas qu'il ait vu le roi Hérode en caleçons !
   – Là, je vous arrête, dit le brocanteur, et je vais vous apprendre une chose : le roi Hérode avait peut-être des caleçons, mais il n'avait pas de commode ! Rien que des coffres à clous d'or. Je vous le dis parce que je suis honnête.
   – Je vous remercie, dit mon père. Et puisque vous êtes honnête, vous me faites le tout à trente-cinq francs. »
   Le brocanteur nous regarda tour à tour, hocha la tête avec un douloureux sourire, et déclara :
   « Ce n'est pas possible, parce que je dois cinquante francs à mon propriétaire qui vient encaisser à midi.
   – Alors, dit mon père indigné, si vous lui deviez cent francs, vous oseriez me les demander ?
   – Il faudrait bien! Où voulez-vous que je les prenne ? Remarquez que si je ne devais que quarante francs, je vous en demanderais quarante. Si je devais trente, ça serait trente...
   – Dans ce cas, dit mon père, je ferais mieux de revenir demain, quand vous l'aurez payé et que vous ne lui devrez plus rien...
   – Ah maintenant, ce n'est plus possible! s'écria le brocanteur. Il est onze heures juste. Vous êtes tombé dans ce coup-là : vous n'avez plus le droit d'en sortir. D’ailleurs, je reconnais que vous n’avez pas eu de chance de venir aujourd’hui. Mais quoi! A chacun son destin! Vous, vous êtes jeune et frais, vous êtes droit comme un i, et vous avez deux yeux superbes ; tant qu’il y aura des bossus et des borgnes, vous n’aurez pas le droit de vous plaindre, c’est cinquante francs!
   – Bien, dit mon père. Dans ce cas, nous allons décharger ces débris, et nous irons nous servir ailleurs. Petit, détache les cordes ! »
   Le brocanteur me retint par le bras en criant : « Attendez ! »
   Puis il regarda mon père avec une tristesse indignée, secoua la tête, et me dit :
   « Comme il est violent ! »
   Il s'avança vers lui, et parla solennellement :
   « Sur le prix, ne discutons plus : c'est cinquante francs; ça m'est impossible de le raccourcir. Mais nous pouvons peut-être allonger la marchandise. »
   Il entra dans sa boutique : mon père me fit un clin d’œil triomphal.

Encontro imagens de Maria Antonieta de camisa de noite, mas não de Herodes de ceroulas. Prefiro, porém, esta fotografia de 
Eugène Atget de uma loja de segunda mão (1898. Paris, Musée Carnavalet.)

6 de agosto de 2016

Férias em Lisboa #1


Na Dinamarca não se veem freiras. Pode ser que as haja, mas, se há, nunca vi nenhuma. Por isso, no outro dia, em Lisboa, chamei a atenção da minha filha — dinamarquesa — para uma freira que ia a passar.

– Já tinhas visto alguma freira, Siri?

Perguntei-lhe se conhecia a palavra freira. Nonne, sim, conhecia.

– Mas como é que sabes que é uma freira? – perguntou ela. – Não podes saber. Pode ser uma só uma muçulmana.








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Imagem: Painel da Catedral de Sta. Maria, em Portland, Oregon, EUA. Não consegui descobrir quem é o autor. (Daqui >)

12 de julho de 2016

Sei um ninho... de cotovia

Uma coincidência engraçada, que achei que merecia referência aqui no blogue:

O verbo dinamarquês at vide corresponde bastante diretamente ao verbo português saber, mas é mais radical na recusa de nomes como objetos diretos. Em português, é possível saber a verdade ou saber o caminho; em dinamarquês, não — só saber qual é a verdade ou saber como se vai. Seja como for, saber um ninho é uma frase tão agramatical como simpática em ambas línguas, e faz parte, em ambas, de um poema conhecido — em Portugal, o “Segredo” de Miguel Torga (Diário, 1956) e, na Dinamarca, “Jeg ved en lærkerede", de Harald Bergstedt (1921), que, com uma melodia de Carl Nielsen (1924), se tornou uma célebre canção infantil.

É curioso, não vos parece?, encontrar o mesmíssimo desvio literário nos dois textos.


[Piano: Claus Jørgensen; Barítono: Thomas Späth]



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O texto de Torga, que todos conhecem: Sei um ninho. / E o ninho tem um ovo. / E o ovo, redondinho, / Tem lá dentro um passarinho / Novo. // Mas escusam de me atentar; / Nem o tiro, nem o ensino. / Quero ser um bom menino / E guardar este segredo comigo. / E ter depois um amigo / Que faça o pino / A voar…

O texto de Bersgtedt, numa tradução bastante imperfeita, mas que dá conta do significado: Sei um ninho de cotovia. / Mais não digo. / Está numa charneca / Num sítio que ninguém vê. // No ninho, estão passarinhos / Ainda com penugem. / Piam e têm línguas / E o ninho é tão quentinho. // E as duas cotovias mais velhas, / Esvoaçam em redor. / Creio que sabem / Que não lhes faço mal. // Escondo-me atrás de um abrunheiro, / Mesmo muito perto, / E vou pé ante pé, / Sustendo a respiração. // Que a raposa está com fome / E os rapazes andam às amoras / Mas ninguém há de saber / Onde é que o ninho está.

5 de julho de 2016

Portugal é uma maçã da China e outras curiosidades linguísticas — sobre laranjas

Uma vez, num autocarro em Copenhaga, ouvi duas senhoras atrás de mim a falar uma língua que não faço ideia qual seria repetindo muitas vezes uma palavra que eu identificava como Portugal. «O que estarão elas a dizer de Portugal?», pensei eu, até que me levantei e vi que tinham dois grandes sacos cheios de laranjas. É claro que era de laranjas que estavam a falar, não de Portugal.

Segundo o que descobri numa pesquisa rápida na internet, laranja é portokall em albanês, البرتقال (burtuqal) em árabe, портокал (portokal) em búlgaro, purtugàl em emiliano-romanholo, ფორთოხალი (p'ort'oxali) em georgiano, πορτοκάλι (portokáli) em grego, portokal em ladino, pertügal em lombardo, Портокал (portokal) em macedónio, purtuallo em napolitano, partugal em parmesão, پرتقال (portexal) em persa, përtugal em piemontês, portocal em romeno e portakal em turco, Parece que isto se deve a terem sido os mercadores portugueses a introduzir a laranja doce na Europa, no séc. XVI. Gil Marks, na sua Encyclopedia of Jewish Food (Wiley, 2010) dá até duas datas concretas, 1529 para a primeira variedade e 1635 para uma segunda variedade mais doce.

Nas línguas europeias, além dos nomes de tipo Portugal, há os do tipo orange/pomarange, cuja etimologia última parece ser o sânscrito naranga-s, passando pelo árabe e pelo persa; e do tipo Apfelsine (d), appelsin (dk), sinaasappel (nl), etc., «maçã da China», de origem germânica, mas que se espalhou também a línguas eslavas. É quase assim também o nome botânico: Citrus × sinensis.

E laranja, a cor? É claro que, antes de haver laranjas na Europa, não havia nas línguas europeias expressões para designar a cor de laranja. A cor era designada com outras palavras, normalmente compostos de vermelho ou amarelo. Não consegui encontrar informação sobre como era designada a cor em português antigo, mas sei que em inglês, por exemplo, se usava vermelho amarelado (ġeolurēad), como aliás em alemão (gelbroth), entre outras designações.

Fonte: Wikimedia Commons
A oposição entre cor de laranja sem hífenes e cor-de-rosa com hífenes irrita muita gente. Não há 100% de acordo (há quem aceite cor de rosa sem hífenes), mas são estas formas que se encontram na maior parte dos dicionários. A explicação comum é que cor de laranja é isso mesmo, a cor das laranjas, ao passo que há rosas de tantas cores que não se pode dizer que cor-de-rosa seja a cor das rosas. Bom, a verdade é que há laranjas que têm a casca verde quando estão maduras e vivi já em sítios onde as laranjas verdes são muito mais comuns que as laranjas cor de laranja; mas é certo que, mesmo as laranjas verdes têm a polpa… cor de laranja.

Este post é bastante desnecessário — é apenas uma compilação de informação que se encontra com relativa facilidade em muitas páginas em linha. A única coisa original que tinha a dizer sobre laranjas, disse-a aqui já há algum tempo: em dinamarquês, as laranjas não têm gomos, têm barcos. (E não acham estranho que em inglês tenham apenas segmentos?)

2 de julho de 2016

Meio enchido e meio esvaziado

Há a famosa história do copo meio cheio ou meio vazio, mas, como explica uma pequena filósofa que tenho cá em casa, isto de cheio e vazio não existe no vácuo, perdoem-me a gracinha pateta: o estado do copo depende de alguma ação — que tende para algum fim. Isto sou eu a dizer, que ela não diz assim. O que ela diz é o seguinte:
Se está meio cheio ou meio vazio depende de como estava antes: se estava cheio, agora está meio vazio e daqui a bocado está completamente vazio; se estava vazio, agora está meio cheio e, se não enchermos mais, nunca chega a ficar mesmo cheio.

1 de julho de 2016

Cantar a amizade, a primavera e o inverno

Há temas de canção que são recorrentes na tradição de um determinado país e que não se encontram ou são raros na tradição de outro país. O louvor da amizade, por exemplo, é um tema recorrente na canção francesa, mas não me parece que seja muito importante na canção portuguesa. É claro, não me citem nisto, porque se trata aqui de uma impressão apenas e não do resultado de uma pesquisa séria, mas não consigo lembrar-me de nenhuma canção portuguesa sobre amizade e lembro-me logo, sem ter de puxar muito pela cabeça, de muitas canções francesas com esse tema. Aliás, são sobre amizade algumas das minhas canções francesas preferidas.

 Georges Brassens, “Les copains d’abord” ("Primeiro os amigos"), 1964

 

Estou convencido de que, depois do amor (que é sempre o tema mais recorrente nas canções de todas épocas e todos os lugares) a primavera e o verão, a chegada do bom tempo e o bom tempo, enfim, são os temas mais recorrentes na canção dinamarquesa. OK, talvez esteja a exagerar. Tenho de reconhecer mais uma vez que não é coisa que tenha verificado com rigor. Mas que é dos temas mais importantes da canção dinamarquesa, disso não tenho dúvida nenhuma.

 Benny Andersen & Povl Dissing, “Hilsen til forårssolen” ("Saudação ao sol da primavera"), 1981
 (a canção começa ao segundo 47)

 

É natural num país frio, dir-me-ão. No Canadá, porém, que é um país realmente frio, com um inverno incomparavelmente mais difícil do que o inverno dinamarquês (se bem que menos escuro, é verdade), é o próprio inverno que se canta, não a primavera nem o verão. E deixem-me agora corrigir o que acabo de escrever, sim? Não sei é assim em todo o Canadá, porque não conheço a canção canadiana de língua inglesa, mas, na canção quebequense que conheço, o inverno é um tema fundamental. Não é que não se cante também a primavera (estou a pensar, por exemplo, em “Hymne au Printemps”, de Félix Leclerc), mas creio que o inverno é tema mais recorrente. A beleza do Inverno, a sua força. E isso não cantam os dinamarqueses. Nem os portugueses nem os franceses. Mas é capaz de haver mais quem cante…

 Gilles Vigneault, “Mon Pays” ("O meu país"), 1965 

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30 de junho de 2016

Mimi Perrin, tradutora de trompete para francês

Mimi Perrin (1926-2010) foi tradutora. Traduziu de inglês para francês, estes dois livros, por exemplo, e muitos mais. Mas não traduziu só do inglês. Traduziu também do trompete, do saxofone, do trombone e doutros instrumentos — sempre para francês!

Mimi Perrin foi fundadora, mentora e letrista de um dos melhores grupos de vocalese de sempre, os Double Six. Vocalese – é natural que muitos não saibam porque é uma prática com um número relativamente restrito tanto de intérpretes como de ouvintes – é um género de jazz vocal em que se agarra num tema instrumental e se lhe cola uma letra, com a técnica mais normal de quem faz letras para melodias preexistentes, que é uma sílaba para cada nota. Quero chamar a vossa atenção para a diferença que há relativamente a canções de jazz «normais», em que é cantada uma melodia composta para voz, e em relação ao scat, que são solos vocais improvisados sem palavras, só com sons sem significado. No vocalese não há improvisação. A melodia cantada pode ter sido originalmente improvisada (um solo de saxofone, por exemplo…); mas, a partir do momento em que é posta uma letra nessa melodia, nasce um tema de vocalese que vai ser cantado sempre da mesma maneira daí para a frente. É sempre difícil definir uma origem absoluta de um género musical, mas, para simplificar, digamos que o vocalese foi inventado por um senhor chamado Eddie Jefferson, no início da década de 50, e que foi sobretudo Jon Hendricks, o fundador e pivô do grupo Lambert, Hendricks & Ross, que o complexificou e sofisticou, passando das melodias simples às canções com várias vozes e, às vezes, letras sobrepostas.

Apresentado que foi o vocalese, voltemos a Mimi Perrin e às suas traduções. Numa entrevista de 1964 (aqui, até aos 2:11*) Mimi Perrin explica a sua filosofia de letras de vocalese, a tal tradução. Para quem não fale francês ou não esteja para ouvir a entrevista, eis o que ela diz (traduzo eu):
Quando se ouve com atenção um grupo de jazz (…) não me parece que os instrumentos façam o que normalmente se chamam onomatopeias, ou seja, tabadá ou tubudu, mas antes que têm um fraseado, um som específico, que varia conforme os instrumentos e que eu tento, de alguma forma… É como uma tradução de uma língua estrangeira, digamos assim; neste caso é uma tradução da música, do som produzido por estes instrumentos. É por isso que, por exemplo, se se tratar de uma parte de trompete, vou tentar reproduzir o ataque do trompete com tt ou com dd. Posso dar um exemplo da música que cantámos há bocadinho [“Blues in Hoss’ Flat”, de Count Basie]... Não são só trompetes, mas enfim...  O princípio, a introdução desse tema (…) é composta de ataques sucessivos e a frase que, para nós, lhes corresponde é « pour tout vous dire, nous partons tenter le bon d’antan » [«para dizer a verdade, partimos para experimentar o bom de antigamente»]. Se reparar, são saltos de tt, de bb, de dd, que reproduzem esse som. Se fizer só tugudugudu, não tem nada a ver.
Fala-se muito da dificuldade de traduzir poesia e uma das dificuldades da tradução de poesia é transpor para outra língua ritmos e sonoridades. Mas, pelo menos, na tradução de poesia, há algum significado a que o tradutor se pode agarrar. Se for tudo muito vago ou se os sentidos produzidos forem muitos ou muito pouco convencionais, pelo menos cada palavra não deixa de carregar consigo algum significado, imagens que sejam. Traduzir de trompete para francês é bem mais difícil, acho eu.


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 * No vídeo hiperligado (é assim que se diz linkado em bom português?), depois da entrevista, os Double Six interpretam "Four Brothers" de Jimmy Giuffre. Não sei em que versão se baseia esta versão vocalese (não é na original da orquestra de Woody Herman), mas, seja ela qual for, diz na descrição do vídeo que Mimi Perrin canta o solo de sax alto, Hélène Devos e Annie Vassiliu fazem os trompetes, Bernard Lubat canta o solo de sax tenor, Gaëtan Dupenher o de sax barítono e Jef Gilson faz o trombone. A letra é, como todas, de Mimi Perrin.

Deixo-vos também, já agora, uma hiperligação para a primeira versão vocalese do tema, em inglês, de Lambert, Hendricks & Ross (1955), o grupo que inspirou Mimi Ferrin a começar a fazer vocalese; e outra para a versão dos Manhattan Transfer (1978), que creio que é a mais famosa. Para compararem :) Boa audição.

P. S.: Logo depois de publicar este texto, encontrei um ensaio recente sobre este mesmo assunto: How Mimi Perrin Translated Jazz Instrumentals into French Song, de Benjamin Givan, aqui.

19 de abril de 2016

Geração e mestrado


Nos comentários a um texto meu de há 8 anos, discute-se a pronúncia de geração e mestrado. Em vez de responder a esses comentários com mais um comentário, prefiro fazê-lo aqui num texto novo, porque trato, nesta resposta, questões que talvez interessem a mais pessoas.

O texto que suscitou os comentários de que aqui trato é sobre o sotaque de Lisboa e um comentador que assina Tuggaboy defende que «[e]m Lisboa […] se dizem mal palavras como mestrado (que dizem "mèstrado") [e] geração (que dizem "gèração"»[1]. Outro comentador, Marco Neves, reponde-lhe que «não se pode dizer que sejam formas erradas de falar», já que «[g]eração e mestrado podem ser ditos assim» e acrescenta que «[há] outras palavras com sílabas átonas de vogal aberta, como padeiro, actor, etc.» Tuggaboy, num comentário posterior, aceita o «a aberto» na pronúncia de padeiro, mas, segundo ele, «mais gente diz padaria com o a átono, se bem que o a aberto está a ganhar em número.» Quanto a actor, diz Tuggaboy, «tem o c que abre a vogal, regra básica do português.» E insiste que «mestrado e geração com o e aberto é sotaque de Lisboa, não é a forma correcta.» Diz que falou com professores, investigou e pode afirmá-lo com 100% de certezas. «Geração vem de gerar, não de gèrar», defende. E termina afirmando que «O sotaque padrão de Portugal é o de Coimbra», onde «quem ainda não foi apanhado no sotaque de Lisboa […] não põe acentos inexistentes».

Há muito que comentar e talvez o melhor seja começar pelo princípio, fazendo um pequeno resumo da história da pronúncia das vogais átonas e da história destas duas palavras. Parece-me prático, neste texto, recorrer aos símbolos fonéticos para o «e fechado» (de se) e o «é aberto» (de ), para os quais usarei respetivamente /ə/ e /ɛ/, mas, para não complicar a vida de quem não está habituado a estes símbolos, escreverei o resto das palavras com grafia normal, não com símbolos fonéticos. O que se segue é, naturalmente, simplificado para dar uma ideia de fenómenos gerais, porque às vezes as coisas são um bocadinho mais complexas.

Ao contrário do que parece depreender-se do que Tuggaboy afirma, as pronúncias com «e aberto», /gɛração/ e /mɛstrado/ são pronúncias conservadoras e não uma inovação introduzida pelos lisboetas nem por ninguém. Inovação são, isso sim, as pronúncias /gəração/ e /məstrado/, mas uma inovação perfeitamente compreensível, porque motivada pela grande tendência para a regularização das regras, que age constantemente em todas as línguas.

Em português antigo, as vogais pronunciavam-se como se pronunciam hoje em espanhol: a, e e o eram /à/, /ê/ e /ô/ quando não estavam na sílaba tónica. Depois, foi-se relaxando a pronúncia destas vogais átonas. Para simplificar, podemos dizer, como muitas vezes se diz, que começaram a «fechar-se». Mas não todas ao mesmo tempo. Este «fechamento» deu-se em dois momentos distintos: num primeiro momento, fecharam-se as vogais átonas que estavam depois da sílaba tónica (postónicas): o /ô/ final passou a /u/, o /à/ final passou a /â/e o /ê/ final passou a /i/. As vogais átonas antes da sílaba tónica (pretónicas) continuaram a pronunciar-se /à/, /ê/ e /ô/[2]. Em seguida, começaram a fechar-se também as vogais átonas pretónicas e os ee átonos que se pronunciavam /i/ foram-se fechando mais até ficarem /ə/ — e chegámos à pronúncia atual.

Agora, há exceções a esta evolução. Marco Neves deu exemplos de duas delas, padaria e ator, mas há dezenas e dezenas, provavelmente centenas. Em princípio, geração e mestrado deviam, precisamente, fazer parte dessas exceções.

As palavras que mantiveram vogais átonas abertas fazem-no principalmente por duas razões: ou porque a vogal está numa sílaba que termina com determinada consoante[3] ou porque ela resulta de uma fusão de duas vogais ao lado uma da outra. Costuma dizer-se, neste último caso, que estavam «em hiato» e chama-se crase a esta fusão. É este caso que nos interessa analisar quando falamos de geração e mestrado.

Uma característica dos falares romances que vieram a dar o português foi deixar de pronunciar muitas consoantes entre vogais. Quando se compara o português com as outras línguas latinas, isto torna-se evidente, mesmo para quem não sabe qual a origem latina das palavras: compare-se, por exemplo, generación, génération e generazione com geração, por exemplo, e panadería com padaria. Ora acontece normalmente que uma vogal aberta que resulta dessa crase «resiste» à regra geral de «fechar» as vogais átonas. É por isso que se diz /esquɛcer/ e não /esquəcer/, /aquɛcer/ e não /aquəcer/, etc., etc., etc.  É muito improvável que geração venha de gerar, como Tuggaboy afirma. De facto, os dicionários dizem que, como parece mais plausível, a palavra deriva diretamente da palavra latina generatione(m). Quando caiu o n intervocálico, ficaram durante algum tempo dois ee ao lado um do outro, que acabaram por se fundir, como é normal nestes casos, num /ɛ/, um «e aberto». Quando os ee átonos do português, que eram /ê/, passaram a /i/ e depois a /ə/, este «e aberto»/ɛ/, que era um som diferente, manteve-se nas palavras onde tinha havido crase[4]. Compare-se, por exemplo, /prɛgar/ e /prəgar/, ambos escritos pregar, em que o primeiro vem de praedicāre e passou, portanto, por uma fase preegar e o segundo vem de plicāre e teve a evolução «normal» sem crase. Se tivermos em conta este fenómeno, não só está explicada a pronúncia /gɛração/, como ela até parece mais normal. O anormal é precisamente, que geração tenha começado a pronunciar-se /gəração/ e talvez mais ainda que gerar se tenha começado a pronunciar como atualmente se pronuncia[5]. Quanto a mestrado, a questão é exatamente a mesma: as palavras da família de mestre, como mestria ou amestrar, têm /ɛ/ aberto por causa da crase[6].

Mas então, /gɛração/ e /mɛstrado/ são típicos de Lisboa? Pode ser. Parece-me estranho que só em Lisboa se tenha mantido essa pronúncia tradicionalista, mas é possível. Não tenho maneira nenhuma de o verificar, teria de ir ver como o dizem as pessoas em todo o país, uma coisa um bocado fora do meu alcance. Mas é bastante mais provável que haja oscilação entre as duas pronúncias em várias zonas, embora não negue à partida, que a pronúncia moderna se possa ter espalhado mais rapidamente em certas regiões. Não sei.

E qual é a pronúncia correta? Bom, em vez de correta, gosto mais de falar de padrão ou de norma, para não parecer que as outras maneiras de falar são incorretas, quando são apenas variantes regionais ou sociais[7]. Mas Tuggaboy parece ter razão: é a pronúncia «fechada» que é atualmente considerada a norma. O Dicionário da Porto Editora regista /gəração/ como pronúncia correta de geração. Quanto a mestrado, porém, aceita /məstrado/ e /mɛstrado/, tal como aceita /məstria/ e /mɛstria/ para mestria. O Dicionário da Academia de Ciências, esse, regista apenas /gəração/, /məstrado/ e /məstria/. Não há dúvida de que a pronúncia fechada está a ganhar terreno e que a pronúncia antiga, quer ela persista mais em certas regiões ou não, começa a ser considerada desviante.

Conheço muita gente que se queixa de estarem a fechar-se todas as vogais pretónicas que eram abertas, mas não há razão para se queixar  a língua muda, é tudo. É claro, estão mais expostas à mudança as palavras que se dizem mais. É mais fácil regularizar-se refrães em refrões que irmãos em *irmões, porque irmãos se diz muito, a forma irregular está muito disponível, sempre presente. Acho que há grande consenso sobre isto: quanto menos usada é uma forma, mais depressa se regulariza. Por isso, demorará mais tempo a que esquecer e aquecer passem a ser /əsquəcer/ e /aquəcer/. Pode até ser que certas formas nunca se regularizem, que corar nunca venha a pronunciar-se /curar/, para não se confundir com curar. Enfim, a língua resolverá os problemas que venha a haver… Mas, no geral, não se perde nada com o fechamento das vogais. Ou talvez só num ou noutro caso sem importância nenhuma: eu ainda distingo /fəstinha/, carícia, de /fɛstinha/, pequena festa, mas é natural que a distinção se venha a anular muito em breve, se é que não se anulou já no falar de muitas pessoas.

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[1] Tuggaboy diz também que «se assiste […] a uma substituição de "tês" (T) por "TSês"», mas não comento isso, porque não consigo perceber a que se refere.
[2] É esta a pronúncia das vogais que existe hoje numa grande parte do português do Brasil, que, neste aspeto, é como o português europeu de há três séculos. Como o francês, o inglês e o castelhano da América, também o português americano tem algumas características conservadoras.
[3] No primeiro caso, temos ainda hoje, por exemplo, as vogais de todas as sílabas terminadas no som /l/ (alcateia, balnear, golfinho ou Melgaço) e algumas terminada noutros sons consonânticos, como tectónico e magnífico, mas há já muita instabilidade neste último caso, observando-se às vezes a coexistência de pronúncias «abertas» e «fechadas» (ouve-se também /mâgnífico/, por exemplo, e /pâctuar/ é bem mais comum, creio eu, que /pàctuar/). É a ação da consoante que explica a «abertura» da vogal em a(c)tor e afins. Como esta vogal era diferente das outras vogais pretónicas, não se fechou como elas, mesmo quando a consoante que tinha causado a «abertura» deixou de se pronunciar. O desenvolvimento foi, portanto, o mesmo que para as mesmas vogais quando resultavam de crase — como se poderia esperar.
Seja como for, independentemente da explicação do fenómeno, não se deve dizer, como diz Tuggaboy, que «actor tem o c que abre a vogal» na pronúncia moderna, porque actor só tinha c na escrita, por convenção, como poderia ter outra marca diacrítica qualquer, por exemplo, um acento grave, ou não ter nenhuma, como acontece na nova ortografia. A palavra era e é uma sequência de quatro sons, /'ator/, independentemente da forma como se transcrevam graficamente. Em actuar e actualidade, havia um c na grafia que não marcava nenhuma abertura…
Há outros casos de vogais pretónicas abertas: o o pronuncia-se aberto quando é uma sílaba sozinho em início de palavra: diz-se /òriente/, /òbrigado/, /òcasião/, etc. E talvez haja outros casos sistematizáveis de que me esteja agora a esquecer.
[4] Ou nas palavras em que ele tinha surgido por causa da consoante final da sílaba, que entretanto deixara de se pronunciar.  Note-se que tudo o que digo aqui do «e aberto», /ɛ/, se aplica também ao «o aberto, /ò/. A questão do «à aberto», /à/, é semelhante, mas mais complicada.
[5] Até porque, segundo a tendência evolutiva normal, deveria a certa altura ter-se confundido com girar. Mas é provável que me esteja aqui a faltar alguma informação ou que haja alguma falha no meu raciocínio, não sei. Talvez não seja alheia a esta evolução as características articulatórias dos sons que rodeiam a palavra, mas não sei o suficiente sobre o assunto para propor explicação.
[6] O étimo latino de mestre é magister e as formas anteriores à forma moderna das palavras da família tem ae em hiato.
[7] Que o português padrão seja o de Coimbra é afirmação que se ouve com frequência, mas é uma ideia algo estranha. A não ser que alguém o tenha decretado, é anómalo que o padrão seja o sotaque do que é, historicamente, a terceira cidade do país. Pela sua localização central no país? Por ter uma universidade antiga? O que me parece normal, como digo no texto “Português de Lisboa: ao que isto chegou…”, é que o sotaque padrão seja o da classe culta da capital. Mas é discussão lateral ao tema deste texto, que não quero agora desenvolver.

11 de abril de 2016

[sem título]

P. nasceu no mesmo ano que eu e vai morrer agora. Talvez este mês ainda, talvez para o próximo, mas muito em breve.

É melhor ser a morte anunciada, ter uma ideia, nem que muito precisa, de quando tudo se acaba? Muita gente me disse já que não, que não queria ter essa revelação.

P. fala da sua morte com racionalidade. Quer deixar resolvido tudo o que puder resolver. «Se tiverem alguma coisa importante para me dizer, é agora que têm de dizer. Seja lá o que for.»

Combinou com o padre e com os mais próximos como será o funeral. Nem tudo pode ser como P. queria. O padre diz-lhe que não pode ler no enterro o poema que ela quer que ele leia, porque é um poema pagão. Compreendo o padre: num discurso fúnebre, não pode dizer algo de que discorde, mesmo que isso lhe tenha sido pedido por alguém que já morreu.

O marido far-lhe-á ele próprio o caixão. O que se passará na cabeça de alguém quando mede e corta e aplaina o caixão da sua mulher que vai morrer em breve?

Muitas pessoas vão visitar P. lá a casa, despedir-se dela. Ninguém põe as coisas assim, nem lhe diz claramente o que pensa ao dizer adeus: «Já não te vejo mais.»
P. fica emocionada e chora. «Tanta gente que gosta de mim.»

Na nossa família, todos choramos P., mas não a choramos na presença dela. É verdade que há muita gente que gosta dela. Saber que falta muito pouco para ela nos deixar não há de impedir uma explosão de dor quando soubermos da sua morte. A morte só muito relativamente se prepara e se aceita, mesmo quando se a tem diante dos olhos.


28 de março de 2016

O que significa o n de ncultura?

Há coisas difíceis de compreender. Foi Shyznogoud que me disse: uma grande parte do que vem no artigo «10 particularidades que provam que os lisboetas também têm sotaque» do ncultura é copiada, às vezes palavra por palavra, de um texto deste blogue, «Português de Lisboa: ao que isto chegou…».

Vê-se que quem me copiou o texto não sabia bem o que estava a fazer, porque faz uma grande salgalhada. Não sei donde vem a parte do texto que não é minha, mas não faz sentido nenhum. Dizem que os lisboetas pronunciam /u/ os oo átonos e que não dizem ee em fim de palavra. Mas isso é em todo o português europeu! Ou mais: se estivermos a falar do o pós-tónico, como no exemplo que dão de «pêssegu», já nem é só no português europeu que isso acontece, mas também no Brasil.  Dizem também que os lisboetas dizem vocês em vez de vós e que usam a gente em vez de nós. Mas isso também acontece em todo o português, não tem nada de lisboeta! Enfim...

Uma coisa triste, como veem. A quem tentou comentar no site ncultura, para explicar o que se passava, não publicaram os comentários; a quem o fez na página ncultura do Facebook,  apagaram-lhe os comentários e, se insistiu, acabam por o bloquear. Depois, ao fim de alguma insistência, puseram um link para o meu texto, indicando-o como «fonte parcial». Mas nada de alterar o texto, nada de fazer citações como devem ser feitas, com aspas e indicação do autor. Onde quererão chegar com isto?

Ainda não explorei devidamente o site ncultura, mas já percebi que copiar textos sem referir o autor é procedimento normal. Ou então, tive muito azar, porque o primeiro — e único — texto que verifiquei, «Como nasceu a língua portuguesa», é obviamente copiado também, como podem verificar.

Vão ver o texto que Jonasnuts escreveu sobre o assunto no seu blogue: conta a história, explica o que é esta ncultura e indica um ferramenta útil para descobrir plágio.

Uma pergunta; alguém sabe o que significa o n de ncultura? Não? Nada? Nenhuma?

25 de janeiro de 2016

Votos de Dharmakāra

[Não é um texto meu. É um texto feito com bocados de textos de outras pessoas — feitos, dois deles, com base em textos de outras pessoas... A Internet potencia a criação de hipertextos, não é? Ou então é a facilidade de selecionar, clicar à direita e pesquisar em Google que torna mais óbvia a relação entre os textos.]

[Diz a Wikpédia que Amitābha foi, noutro tempo e talvez noutro mundo, um monge chamado Dharmakāra que decidiu obter para si uma Terra Pura, um mundo criado pelo mérito de um buda. Dharmakāra definiu em 48 votos a Terra Pura que queria criar, ou seja, as condições em que os seres vivos renasceriam nessa terra e que tipo de seres seriam quando lá renascessem. Dos votos de Dharmakara*:]
...
Se, depois de eu atingir o Estado de Buda, os humanos e os deuses da minha terra suscitarem pensamentos de apego a si próprio, que eu não atinja a perfeita iluminação.
...
[Em Myths & Texts (1960), Gary Snyder exprime de forma admirável a sua conceção da Terra Pura**:]
...
Se, depois de eu atingir o Estado de Buda, alguém na minha terra alguém ficar sem um dedo a atrelar vagões de carga, que eu não atinja a mais alta e perfeita iluminação

[A 28 de outubro de 2010, no seu blogue Sweep the dust, Push the dirt, John Pappas acrescentou os seus votos aos votos anteriores:]
...
Se, depois de eu atingir o Estado de Buda, alguém na minha terra for conspurcado ou desprezado por ser cético ou livre-pensador, que eu não atinja a mais alta e perfeita iluminação
...


 
_______________

* Traduzo eu do inglês. A minha tradução é inspirada na tradução de “Amitabha’s Vow” de Gary Snyder que Manuel de Seabra fez para a Editorial Futura (1973). Os três textos aqui referidos e esquartejado, podem e devem ler-se na sua versão integral na página de blogue de John Pappas que me inspirou. Pode até dizer-se que me limitei a condensá-la.
 ** O meu avô paterno perdeu mais que um dedo a atrelar vagões — perdeu a vida.

10 de janeiro de 2016

Coisas de somenos importância em tradução

Circula por aí (quer dizer, não sei se circula muito, mas eu vi) um fotograma da transmissão do discurso de Ano Novo de Angela Merkel num canal de televisão inglês, em que as legendas dizem: «This New Year’s Eve, I’d like to say one word: Thank you![1]»

Não sei se o erro se deve ao uso de um tradutor automático, como alguns propõem, ou a um automatismo de algum tradutor, mas é um problema antigo este da «tradução» do discurso metalinguístico, ou seja, de quando o que se diz ou escreve se refere, pelo menos em parte, à própria língua em que está a ser dito ou escrito. Imaginem que é preciso traduzir para inglês um texto em que se diz:

«Sim, lembrem-se de que a língua em que leem isto é a língua de Camões, mas também é a língua da minha avó Belmira.»

Posso «traduzir» Camões por Shakespeare, se der ênfase à relação entre as línguas e os seus utentes mais famosos, mas é provável que isso me leve a grandes confusões na continuação do texto... Além disso, se a minha avó Belmira entra na frase como representante do linguajar popular, dificilmente um falante típico do inglês popular se chamará Belmira. Ou posso traduzir tudo «literalmente» e deixar Camões e Belmira na tradução, se quiser dar ênfase ao facto de ser do português que se está a falar, mas crio um semiabsurdo, porque a língua em que a frase está escrita não é a língua de Camões nem da minha avó Belmira. Digo semiabsurdo, porque posso contar com um fator exterior à tradução para me decidir por esta última opção: a consciência do leitor de que está a ler uma tradução, que desfaz relativamente o absurdo[2].

Mas enfim, problemas destes não se põem muitas vezes ao tradutor. Há outros, porém, ainda mais extralinguísticos, que surgem com bastante frequência. Aliás, é por isso que, ao trabalho que eu faço, que antigamente se chamava apenas tradução, se chama agora muitas vezes tradução e localização. Pode parecer picuinhice, mas não sei se será… Um exemplo:

Tenho de traduzir «The Ramas now control the natural resources in an area the size of Funen in Denmark.» Os Ramas são um grupo étnico da Nicarágua, mas isso é explicado antes, e a ilha dinamarquesa de Fyn (Funen em inglês) chama-se Fiónia em português. Por razões que não interessa aqui explicar, o texto original destinava-se a dinamarqueses, mas a tradução é para ser lida por moçambicanos. «Do tamanho da Fiónia?» Se o trabalho do tradutor fosse só traduzir, era obviamente isso que devia escrever, «do tamanho da Fiónia», porque é essa a tradução. Mas, para um moçambicano «normal», isso não faz o sentido que faz o texto original para um dinamarquês. Na realidade, para um moçambicano «normal», «do tamanho da Fiónia» não faz sentido nenhum.

É aqui que começa o trabalho de localização. Tenho de traduzir não o significado da frase, mas o sentido que ela faz para o público-alvo. Mais por brincadeira, ponho a questão a uns amigos.

Um sugere-me usar «a unidade-padrão mais em voga nos jornais»: uma área de cerca de 420.000 estádios de futebol. Bom, é certo que os moçambicanos que vão ler o artigo conhecem estádios de futebol, mas fico com muitas dúvidas sobre esta maneira de dizer as coisa…

Outro propõe-me comparar com um distrito de Moçambique. Também não é má ideia. «O distrito de Sussundenga», diz ele, «tem cerca de 7.000 km²». Podia escrever «um pouco menos de metade do distrito de Sussundenga», mas a maior parte dos moçambicanos não faz ideia nenhuma do tamanho do distrito de Sussundenga. Teria de arranjar uma parte de Moçambique de cujas dimensões os moçambicanos tenham uma ideia tão clara como os dinamarqueses têm do tamanho da Fiónia. Que parte de Moçambique será essa?

Acabo por traduzir «Os Ramas controlam agora os recursos naturais de uma área de cerca de 3.000 km²», mas sem certeza nenhuma de que é a melhor… localização.

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[1] Penso que muitos concordarão que a tradução correta é «I’d like to say two words: Thank you!» Pode traduzir-se Danke por uma palavra apenas, thanks, mas isso muda o registo do enunciado, que se torna mais informal. Thank you fica muito melhor neste contexto e «duas palavras» continua a querer dizer «de forma muito concisa».
[2] Já aqui falei disto uma vez, num texto sobre coisas difíceis de traduzir ou, em última análise, realmente intraduzíveis — que não são de modo nenhum as míticas «palavras intraduzíveis» que fazem correr tanta tinta (mal empregada…).

Às escuras

A minha filha Joana dizia um dia destes ao jantar que gosta de estar no quarto de luz apagada, mas que eu, quando lá entro e a vejo assim, lhe digo sempre a mesma coisa: «Então, estás aqui no escuro?»

A Joana é dinamarquesa, para quem não saiba. A frase «Então, estás aqui no escuro?» está correta e ela pronuncia-a bem, sem sotaque estrangeiro. Aquele «no escuro», porém, chama-me a atenção. Ele sempre me ouviu dizer a mesma frase (ela tem agora 13 anos), mas nunca foi essa a frase que ela ouviu: eu digo sempre «às escuras» quando quero dizer «de luz apagada». Quer dizer, não é impossível que ela tenha ouvido dizer «no escuro» a outras pessoas, com esse mesmo sentido, mas é bastante improvável que o tenha ouvido muitas vezes.

Há duas possíveis explicações: uma é que seja a influência do seu dinamarquês materno que a leve a dizer assim: «no escuro» é a transposição direta do «i mørket» dinamarquês; outra é que crie ela próprio a forma regular portuguesa, a partir do léxico e regras que tem interiorizadas. E digo «regular», porque «às escuras» é obviamente uma expressão cristalizada, desviante em relação à lógica mais comum do português (no quarto, na escuridão…). Uma expressão idiomática, se preferirem, que se aprende inteira.

O que é preciso para produzir expressões que vão contra as regras que se aprenderam, não sei. É uma discussão muito complicada. Mas parece certo que têm de ouvir-se muitas vezes. Numa situação como a da Joana, para quem o português não é exatamente língua estrangeira, mas também não é uma língua com que tenha ou tenha tido muito contacto, parece que, quando a expressão idiomática compete com uma construção semelhante vinda da gramática interiorizada, é esta última que ganha.

Também é preciso ver que se aprende a dizer «no escuro» com muitas frases em que entra a preposição em e/ou o nome escuro, mas só se aprende a dizer «às escuras» ouvindo precisamente essa expressão ― ou ouvindo a expressão «às claras», desconfio.